sexta-feira, 19 de julho de 2013

Alarme de incêndio: o fascismo espreita a crise



No último dia 05 de junho, o jovem estudante Clément Méric, 18 anos, foi espancado até a morte por hordas fascistas na cidade de Paris, França. O triste fato, mais que um acontecimento político, desperta o alarme de incêndio na sociedade em tempos de crise. A sociedade tardo-burguesa, na aurora do século XXI, tem se mostrado incapaz de produzir uma solução estratégica que possibilite a saída da crise e a continuidade da lógica capitalista, no entanto, continua em vigor a manutenção do seu projeto societário através de agressivos ajustes ideológicos. Essa crise cresceu, expandiu-se sobre a sociedade e consolidou-se numa crise sistêmica que está colocando em xeque as instituições da ordem burguesa e o sistema capitalista, expondo a crescente erosão institucional desse sistema predatório. 
A particularidade mais visível da crise sistêmica global, que é a crise financeira mundial, já se estende por um período de seis anos e continuará por um tempo ainda mais longo. Não existe uma causalidade única para a crise, mas, examinando esse processo, a partir das descobertas científicas de Marx n´O Capital, pode-se concluir que essa crise tem na superprodução, seu elemento determinante. Apesar de o Estado burguês ter injetado uma quantidade substancial de recursos para evitar o aprofundamento da crise, o equilíbrio do sistema está cada vez mais distante. O que se apresenta na cena do capitalismo é a anarquia social da produção. O descompasso entre oferta e demanda tem aprofundado a erosão do sistema, gerando pobreza para o conjunto dos trabalhadores e luxo exorbitante para a burguesia. Apesar do aporte de cifras substanciais por parte do fundo público - algo em torno de alguns trilhões de dólares para evitar o colapso do sistema bancário - a fome ataca centenas de milhões de pobres em todo o mundo e aprofunda o pauperismo dos trabalhadores.
Esse ciclo de erosão societária remete a um processo de restauração tardo-burguesa. A degeneração ideológica do pensamento burguês falsifica e naturaliza a crise através da violência do Estado, quando ataca os direitos sociais dos trabalhadores, quando avança sobre o fundo público, quando modifica a legislação colocando em seu lugar regulações reacionárias e que vão, via o aparato jurídico-político, esgarçando o tecido social.
Estamos começando um período histórico em que a crise levará à abertura da cena política, quando o imponderável poderá se tornar realidade numa velocidade extraordinária. Os efeitos desse projeto de barbárie já se manifestam para além do aumento da recessão, do desemprego, do eclipse financeiro. Esses fatores se consolidam na crise de subjetividade dos trabalhadores, na xenofobia crescente que se alastra pela Europa e, até mesmo, na periferia de São Paulo (vide o tratamento dispensado aos bolivianos), no racismo que infesta os estádios na Europa, no rigor com que a “classe média” exige novas leis para punir os pobres (vide a campanha pela mudança na maioridade penal no Brasil), nas legislações fascistas que visam impedir que os comunistas disputem as eleições (Hungria), no ascenso do populismo neofranquista na Espanha, no crescimento dos partidos fascistas na Grécia, Holanda, Itália e Áustria.
Acendeu o alarme de incêndio, precisamos do freio de emergência para conter a barbárie. A crise sistêmica está erodindo as estruturas da institucionalidade burguesa e essa classe começou a construir brechas para a ação do fascismo. A morte do jovem lutador Clément Méric deve iluminar a compreensão sobre os caminhos a trilhar e as lutas a desenvolver, agora, no fogo da conjuntura.
O fascismo, em síntese, é uma possibilidade política de caráter social conservador que se apresenta durante o período do imperialismo capitalista para tentar se consolidar no desenvolvimento do capitalismo monopolista, apresentando-se como um instrumento de modernização social de corte irracionalista, alimentado por uma cultura de consumo dirigido a partir da vigência do capital financeiro. Essa sociedade da lógica tardo-burguesa tem estimulado a guerra imperialista, desenvolvido o misticismo da aparência para fugir da ciência e da filosofia, se aquartelando nos “nacionalismos chauvinistas”, no anticomunismo e nas saídas da contrarrevolução permanente (governos da ordem neoliberais).
Diante desse processo de emergência se faz necessário a “unidade da teoria e da prática”, como pensado por Marx. É importante acabar com o espaço político para a manobra fascista que se utiliza do pragmatismo radical, e suas técnicas de propaganda, para fazer a disputa ideológica, agindo em campo aberto de forma “antiliberal, antidemocrático, antissocialista, antioperário”, aplicando, em muitos momentos, a violência física, estabelecendo o medo e o terror.
Contudo, a abertura da cena política, com sua imprevisibilidade, está forjando um mundo em convulsão que tem movimentado milhões de trabalhadores. Partem da indignação, se comportam de forma espontaneísta, balançam estruturas com greves e manifestações. A história do tempo presente está lançando uma palavra de ordem: urge a auto-organização dos trabalhadores. É tarefa da emergência histórica organizar a vanguarda para que, quando os trabalhadores se movimentarem, ter condições políticas de dirigir as batalhas que a luta de classes acena. Numa só palavra, precisamos da construção do operador político enquanto sujeito coletivo que tenha capacidade de formular e agir a partir de um projeto orgânico dos trabalhadores. Esse operador político se constitui de forma diversa para, a partir da unidade do bloco revolucionário do proletariado, fazer o enfrentamento à ordem do capital, impedindo assim que o fascismo em seu novo ciclo vença. Ao mesmo tempo, esse instrumento de vanguarda, orgânico aos trabalhadores, deve construir a possibilidade da revolução.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Faltam 3 mil médicos na periferia de São Paulo

 

Dizer o quê coxinha? 

Déficit de médicos castiga moradores da periferia de São Paulo. Mesmo na maior metrópole do país, a carência de profissionais atrasa diagnósticos e tratamentos; atrair especialistas para longe do centro é o maior desafio



médicos são pauloA distância, a dificuldade de locomoção e a carência de médicos especialistas formados criam um quadro problemático nas periferias de São Paulo: a população mais pobre não consegue passar por consultas médicas e realizar exames no período adequado, aguardando meses pelo atendimento. Nos rincões da maior metrópole do país falta a porta de entrada no sistema público de saúde: ginecologistas, psicólogos, psiquiatras, anestesistas e até clínicos gerais. Nos cálculos da Secretaria Municipal de Saúde, o déficit é de 2.680 médicos.
Lúcia Oliveira, Maria Moreira e Jacy Galvão, denunciam: falta clínico geral há um ano em seu bairro, no extremo sul de São Paulo (Foto: Danilo Ramos | RBA)
“Temos três vagas de clínico geral e estamos sem nenhum. Dois estão de licença, um foi embora e não há previsão de quando serão repostos. Eles são a base”, lamenta o funcionário de um complexo de saúde no extremo sul da capital paulista, que preferiu não se identificar. Usuários reclamam que a falta de clínico geral já dura um ano.

“Atendemos aqui 25 mil pessoas e estamos tentando redirecionar para outras unidades. Temos pediatra, psiquiatra, ginecologista e dentista. A demanda por psiquiatra é muito grande, por isso atendemos todos os pacientes, mesmo que não sejam da região.”
A psiquiatria é uma das especialidades prioritárias do Ministério da Saúde no programa Mais Médicos, lançado este mês pelo governo federal. O Centro de Atenção Psicossocial (Capes) Infantil Capela do Socorro, também na zona sul, esperou 11 meses pelo especialista, que chegou à unidade na última semana. “Tivemos dificuldade de conseguir médico, além da psiquiatria infantil ser uma área bastante específica”, afirma o supervisor do Capes, Paulo Cesar da Silva.
A unidade tem três psicólogos, três terapeutas ocupacionais, dois assistentes sociais, dois enfermeiros, cinco auxiliares, um farmacêutico, um assistente de farmácia, dois técnicos administrativos, dois agentes operacionais e um motorista. “Por conta da equipe e do trabalho multidisciplinar não suspendemos os atendimentos nem os acolhimentos. Manejamos a situação”, relata.
Nos últimos dez anos, o Brasil criou 147 mil vagas para médicos, 36,7% a mais do que os 93 mil formados no período, o que totaliza uma carência de 54 mil profissionais, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados em maio. Para tentar dar conta do problema, o governo federal lançou mão, neste mês, do Programa Mais Médicos, que prevê aumentar o ciclo de formação dos cursos de Medicina para garantir dois anos de atendimento obrigatório no Sistema Único de Saúde (SUS).
Os médicos que se integrarem ao programa, sempre nas unidades de atenção básica, receberão uma bolsa de R$ 10 mil, além de uma ajuda de custo que vai de três salários-extras para áreas remotas da Amazônia a um salário-extra no caso da periferia das grandes cidades. As vagas que não forem preenchidas por brasileiros serão destinadas a médicos estrangeiros.
Em São Paulo, a prefeitura criou um um grupo de trabalho com representantes das secretarias da Saúde, Planejamento e Finanças “para debater um novo plano de carreira com o objetivo de manter os profissionais na rede municipal e equalizar o desequilíbrio salarial hoje existente quando se comparam os salários pagos pela administração direta, pelas organizações sociais e pelo setor privado. Também será aberto concurso público este ano para preenchimento das vagas existentes”. Só no Hospital Municipal Professor Dr. Waldomiro de Paula, na zona leste, há um déficit de 120 profissionais.
As entidades que representam médicos, como a Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), rechaçam a afirmação que faltam médicos para trabalhar nas periferias e nas regiões isoladas do país. De acordo com as organizações, a carência de profissionais nessas áreas deve-se à falta de infraestrutura e, por isso, o Programa Mais Médicos não revolverá efetivamente o problema.

ESPERA

O principal problema da falta de médicos, segundo os usuários, é a demora no atendimento. “Meu marido teve um ‘derrame’ em abril e ainda não fez os exames. Ele está com a voz enrolada e fico com medo porque dizem que o segundo é mais forte”, contou a diarista Andrea Rodrigues, que mora no bairro Cocaia, na zona sul, enquanto aguardava para marcar uma consulta na Unidade Básica de Saúde (UBS) Cocaia, pensando em prevenir que o marido sofra um novo acidente vascular cerebral.
No mesmo local, a dona de casa Cirlene dos Santos reclama que só conseguiu realizar cinco dos nove exames pré-natais da gestação do seu terceiro filho, hoje com três anos. “Depois do nascimento, ele deveria vir mensalmente para acompanhamento, mas se consegui trazê-lo seis meses foi muito, porque não tinha médico. Eles faltavam e éramos remarcados para o mês seguinte.”
A falta de médicos se repete também na zona leste da capital paulista. No Hospital Santa Marcelina, em Itaquera, faltam cirurgião geral, neurocirurgião, anestesista, ginecologista, neonatologista, intensivista, reumatologista e “primeiro lugar e há tempo: clínico”, como informou a assessoria de imprensa da entidade, por e-mail. “A maior causa é salarial. Existe uma grande competição com outras instituições, já que São Paulo não tem política única, e por causa da distância.”

Ainda em Itaquera, faltam médicos no Hospital e no centro de Assistência Médica Ambulatorial (AMA) Planalto. Por isso, alguns atendimentos são oferecidos apenas algumas vezes por semana. Para compensar, alguns médicos são convidados a fazer horas extras em plantões, segundo a assessoria de imprensa da entidade.
“Não é todo dia que falta médico. Quando acontece, é feito o remanejamento. Temos algumas referências, como o Hospital Ermelino Matarazzo. Quando já se sabe que aqui em tal dia não tem uma especialidade, os pacientes são encaminhados para essa unidade”, informou a assessoria de imprensa. “A própria população é ciente disso. A gente tenta fazer o possível, mas tem coisa que a gente sabe que não vai ser 100%, devido à grande defasagem.”
A falta de médicos faz com que a vendedora Maria Fabiana dos Santos Costa espere, desde outubro do ano passado, por uma ressonância magnética nos joelhos, para acompanhar um problema nos ligamentos. “Estou doente há quase três anos e só piora. Fico em cima da cama sem poder andar”, conta. Antes disso, ela esperou mais dois anos para conseguir a consulta com o ortopedista.
“Eu morava em Itaquera e conversei com a assistente social do posto do Jardim Helian. Como eu não estava conseguindo nem mais tomar banho sozinha, ela me passou na frente, pela urgência. Mas o médico mal me atendeu e só falou que eu tinha de fazer a ressonância para depois voltar”, conta.
“Eles falam que é muita gente e que tem de aguardar. Há um mês eu liguei (no posto) e disseram que estavam chamando quem tinha passado com o médico em junho do ano passado. Se eu fui em outubro, vou passar quando?”, questiona. “Enquanto isso o caso só piora, não ando mais e estou com depressão porque não posso nem sair da cama sem ajuda.”
A falta de pediatras é um problema para a dona de casa Maria Aparecida da Silva, que já por duas vezes tentou levar a filha de quatro meses ao AMA Santa Marcelina, em Itaquera, e não encontrou o especialista. “Disseram que era possível que eu encontrasse lá para os lados do Belém”, lembra, referindo-se a outro bairro da zona leste paulistana
“Tanto o Santa Marcelina quanto o AMA do Hospital Planalto não atendem. Também já fui lá e não encontrei pediatra”, conta. “Todo mundo que chegava voltava com as crianças, porque eles já iam avisando, da porta mesmo, antes de a gente entrar, que não tinha pediatra e que não tinha como atender.”



quarta-feira, 17 de julho de 2013

Comissão Europeia vai ter de explicar cumplicidades com Israel na violação de direitos humanos

A eurodeputada do Bloco de Esquerda Alda Sousa dirigiu à Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros, Catherine Ashton, uma lista de perguntas escritas sobre a contínua violação dos direitos dos Palestinianos levada a cabo por Israel, nomeadamente sobre a revogação dos títulos de residência nos territórios ocupados.
Alda Sousa dirigiu a Catherine Ashton uma lista de perguntas escritas sobre a contínua violação dos direitos dos Palestinianos levada a cabo por Israel, nomeadamente sobre a revogação dos títulos de residência nos territórios ocupados – Foto de Catherine Ashton e Benjamin Netanyahu
Em 2006 a União Europeia solicitou às autoridades israelitas a cessação de todos os tratamentos discriminatórios dos palestinianos em Jerusalém Oriental. Contudo, desde então, o Estado de Israel tem vindo sucessivamente a ignorar esta questão, continuando a aprofundar a estratégia que visa expulsar todos os palestinianos de Jerusalém. Desde 1967 já foram revogadas 14 mil autorizações de residência, impedindo, assim, estes cidadãos palestinianos de viverem na cidade onde nasceram.
A União Europeia assinou um Acordo de Associação com Israel, no qual explicitamente consta que as relações entre ambos se estabelecem obrigatoriamente na base da adesão mútua aos princípios democráticos e aos direitos humanos.
Apesar da constante escalada de violação dos direitos humanos pelo Estado de Israel, em clara violação dos acordos internacionais estabelecidos, a União Europeia tem vindo a desenvolver e a aprofundar as suas relações bilaterais.
Perante este cenário, Alda Sousa questionou Catherine Ashton, vice-presidente da Comissão Europeia e Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros, sobre o que tem sido feito pela União Europeia de modo a que o Estado de Israel possa ser efetivamente responsabilizado pelas violações de direitos humanos dos palestinianos, em particular no que diz respeito às revogações das autorizações de residência.
A Deputada do Bloco de Esquerda, integrada no grupo da Esquerda Unitária (GUE/NGL) solicitou a Catherine Ashton que esclareça quais os instrumentos legais de que a UE dispõe foram efetivamente usados nos últimos 20 anos para levar Israel a modificar as suas políticas, conformando-as com o Direito Internacional e com o Direito Internacional Humanitário; e que explique como é que é possível que em 20 anos Israel tenha vivido à margem dos mais elementares princípios de direitos humanos.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Empresas serão investigadas por perseguição a sindicatos na ditadura

Ultimo Segundo

Henning Boilesen, presidente da Ultragás, financiador e entusiasta da Oban, fiscalizava pessoalmente sessões de tortura.


Comissão Nacional da Verdade proporá nova lei para obrigar empresas que colaboraram com o regime militar a indenizarem financeiramente os trabalhadores

Um grupo de trabalho formado hoje em São Paulo pela Comissão Nacional da Verdade vai investigar o envolvimento de empresas privadas e estatais na perseguição política a sindicatos que sofreram intervenção pela ditadura militar. É um novo capítulo sobre os anos de chumbo.
Na mira da CNV estão grandes empresas estatais como a Petrobras, Embraer, Engesa, Telebras, Telesp (hoje sob o controle da Vivo), Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa) e Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Entre as privadas estão Mafersal, Monark e Coral e Grupo Ultra. A lista ainda está aberta e deverá ser completada depois de levantamento que está sendo feito pela CNV, centrais sindicais e sindicatos.
“O golpe foi contra a República Sindical que estava em construção e não contra a República Comunista, como argumentaram os militares”, disse a coordenadora da CNV, Rosa Cardoso. Ao lado de dirigentes sindicais, ela anunciou a nova frente de investigações durante entrevista no escritório da Presidência da República em São Paulo.
Segundo Rosa Cardoso, a ditadura, fundada por um conceito de estado desenvolvimentista, deixou como legado a interrupção do processo de ascensão da classe trabalhadora e perdas salariais até hoje não recuperadas.
Segundo os sindicalistas, logo depois do golpe, já em abril de 1964, 350 sindicatos sofreram intervenção, número que se elevaria para mais de 600 ao longo do ciclo militar, onde mais de 8.400 dirigentes sindicais foram perseguidos. Muitos foram presos, processados e alguns ainda permanecem desaparecidos.
A coordenadora da CNV explicou que a partir do levantamento que está sendo feito o País tomará conhecimento de um dos mais importantes eixos da ditadura, que foi a perseguição aos sindicatos e operários, especialmente na região do ABC paulista.
Ao final da investigação, a CNV deverá propor uma nova lei para obrigar empresas que colaboraram com o regime militar – encaminhando a chamada lista negra com nomes de ativistas políticos aos órgãos de repressão – a indenizarem financeiramente os trabalhadores. Serão avaliados os casos em que a perseguição se deu de forma sistemática.
A CNV está estudando legislação adotada em países como a Alemanha e Argentina, que enquadraram as pessoas jurídicas, respectivamente, durante o nazismo e a ditadura da década de 1970, também como responsáveis pelas graves violações aos direitos humanos e dos trabalhadores. Nos dois países as empresas se viram obrigadas a fazer a reparação pecuniária.
No caso do Brasil há fartura de documentos demonstrando que as empresas encaminhavam as fichas de seus funcionários aos ministérios da Aeronáutica, Exército, Marinha e aos órgãos de repressão política das policiais estaduais. Só a Petrobras encaminhou à CNV cerca de quatro mil rolos de documentos microfilmados com informações sobre trabalhadores perseguidos.



segunda-feira, 15 de julho de 2013

As vidas de Maurinho e Sabotage

Brasil de Fato

Livro ‘Um Bom Lugar’ resgata a memória de um dos rappers mais conceituados no Brasil; próximos lançamentos estão marcados para esta semana

Mauro Mateus dos Santos ficou conhecido principalmente pela sua versatilidade no meio artístico. Como Sabotage, participou de dois filmes, lançou um disco, gravou vídeo clipe e foi premiado como revelação e personalidade do movimento Hip Hop. O disparo meteórico do rapper foi em apenas dois anos.
Entretanto, ao mesmo tempo que sua ascensão no meio artístico foi repentina, sua carreira foi interrompida de forma precoce. No dia 24 de janeiro de 2003, a voz do maestro da Favela do Canão - uma referência à favela paulista onde nasceu e foi criado – foi calada por quatro tiros.
Hoje, após dez anos de sua morte, a alma de Sabotage continua viva. Será lançado um disco póstumo com músicas inéditas, no qual ele trabalhava dias antes de ser assassinado. O rapper também voltará à cena no documentário “Sabotage, o Maestro do Canão”, que será lançado até o final deste ano.
Além do disco e do filme, a biografia de Maurinho, como era chamado pelos amigos da comunidade de onde viveu, foi retratada no livro “Sabotage, Um bom lugar”, de Toni C., autor também do romance “O Hip Hop está morto”.
O lançamento oficial da biografia foi nos dias 9 e 10 deste mês no Itaú Cultural, em São Paulo. Nesta quarta-feira (17), será lançado no Sarau da Cooperifa, na zona sul da capital paulista e, no dia 23 de julho, na livraria Suburbano Convicto, na Bela Vista, também em São Paulo. O lançamento da obra também está previsto para os dias 29 de julho, em Jundiaí, e no dia 30, na Livraria Saraiva, no pátio Paulista. (o livro pode ser adquirido neste link)
Na foto, da esq. para a dir., os filhos de Sabotage, Wanderson e Tamires. Ao lado deles, o autor da biografia Toni C.

Primeiro contato

Ao Brasil de Fato, o autor da biografia lembra como foi o dia da morte do músico. Ele participava do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (RS), onde Sabotage viajaria para, no dia seguinte, ser atração surpresa em uma das atividades do encontro. “Informei as pessoas do Hip Hop do Brasil inteiro, que estavam ali no Fórum Social, que o Sabotage tinha morrido. E hoje, dez anos depois, eu tenho a oportunidade de contar a história de vida dele.”
Meses após a sua morte, a Câmara dos Vereadores de São Paulo prestou uma homenagem ao músico. Durante o encontro, o rapper Rappin Hood, amigo de Sabotage desde 1990, explanou como foi que ele trouxe Sabotage para o rap. Ele lembrou que, junto com o rapper Sandrão, foram até o ponto de venda de droga onde Sabotage “fazia bico”, determinados a apresentar uma alternativa ao jovem. A partir daí, segundo Hood, Sabotage seguiu na carreira de músico e não voltou mais para o mundo do crime. Nesse dia, Toni C. acompanhou o encontro e o documentou na coluna que tinha no portal Vermelho.
Rappin Hood esboçou uma reação positiva ao ver o registro de sua explanação no artigo de Toni C. Desde então, o sentimento do autor pela vida de Sabotage começou a dar sentido no que poderia vir a ser uma biografia. “Eu cheguei a comentar isso pro Rappin Hood. Ele achou uma boa. Concordou que era necessário ser feito, mas combinamos que teria um acordo que o próximo passo, já que nós dois tínhamos um consenso sobre o projeto, era consultar a família [do Sabotage]”, conta Toni.

O elo que faltava
No entanto, o tempo passou e a ideia da biografia foi ficando adormecida, pelo menos na prática. Mas, por ironia do destino, no ano passado, Toni foi chamado de última hora para substituir um fotógrafo na cobertura da morte de nove anos do cantor. Foi nesse momento que ele passou a ter contato com a família de Sabotage. “Era o elo que faltava. Falei do projeto, eles toparam, acharam legal e a obra está aí na mão.”
Um ano de trabalho foi o tempo que Toni teve para escrever a biografia. Mas ele mesmo conta que tudo começou no dia em que Sabotage foi assassinado. “Eu já estava fazendo [a biografia] sem saber. Estava construindo a obra que é uma coisa mais extensa. São alguns capítulos que ocorreram antes mesmo da pesquisa oficial para o livro.”

Um bom lugar
O livro ‘Sabotage, Um bom lugar’ conta com prefácio de um titã, Paulo Miklos, com quem Sabotage conviveu por semanas no set de filmagens de ‘O Invasor’, filme do diretor Beto Brant.
Além de contribuir para o rap nacional, Toni espera que a biografia de Sabotage sirva para que as pessoas percebam que é possível construir uma carreira digna com simplicidade, e também enfrentar os problemas da vida através de muita luta e persistência. 
“Ele [Sabotage] é um sentimento das pessoas que lutam por coisas melhores. Ele é a personificação das mazelas sociais do Brasil. Um negro, que perdeu a mãe de forma trágica, que tinha um irmão bandido e o outro com doença mental, era filho de pai carroceiro e que lutou a vida inteira para ter um lugar para morar. Era um favelado que não tinha onde morar e foi despejado de onde ele nasceu e viveu parte da vida, que é o Canão, que ele canta tanto. Porque é a identidade dele de chão, de terra. Esse é o Sabotage, que representa tudo isso e muito mais.”
‘Um Bom Lugar’ é a primeira biografia definitiva de um rapper brasileiro. Os rappers Rappin Hood, Celo X, Ganjaman, Sandrão, Helião e Mano Brown são alguns dos que concederam entrevistas exclusivas para a obra.
Além do livro, o rapper também voltará à cena no documentário “Sabotage, o Maestro do Canão”, que será lançado no final deste ano. Dirigido por Ivan Vale Ferreira, da 13 Produções, o documentário traz depoimentos de diversos músicos e pessoas ligadas a ele, demonstrando a importância desse artista que misturou estilos e se tornou uma lenda após sua morte.



sexta-feira, 12 de julho de 2013

Centrais sindicais consideram Paulo Bernardo ‘desastroso’.

Correio do Brasil



ABr

Em entrevista realizada nesta capital, a respeito das preparações para as manifestações realizadas ao longo deste 11 de julho, as centrais sindicais criticaram a atuação do ministro Paulo Bernardo à frente da pasta das Comunicações. Para os representantes dos trabalhadores, o ministro tem dado declarações que representam apenas suas posições individuais, nitidamente contrárias à democratização da mídia.
A roda de perguntas, mediada por Rita Casaro, do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, contou com a presença do presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas; do vice-presidente, Nivaldo Santana (vice-presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB); do diretor-executivo da Força Sindical, Claudio Prado; do presidente da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Ubiraci Dantas; e do presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Antonio Neto.
Apesar da mobilização para as paralisações, greves e manifestações nacionais programadas para o 11 de Julho ser a pauta principal da atividade, transmitida pela TVT, os representantes das centrais foram tachativos ao serem questionados sobre a atuação de Paulo Bernardo e do Ministério das Comunicações. O papel partidarizado da grande imprensa brasileira e a importância da mídia alternativa para a agenda sindical também foram abordados.
De acordo com Wagner Freitas (CUT), Bernardo bate de frente com as deliberações feitas pelo partido e, inclusive, pela própria CUT, entidade da qual o ministro é oriundo.
– Suas posições não refletem nada do que discutimos sobre o tema, afinal, somos favoráveis à criação do marco regulatório do setor – diz, salientando que “suas declarações mais recentes são patéticas”. Recentemente, Bernardo concedeu entrevista às páginas amarelas da revista semanal de ultradireita Veja, declarando ser contrário à regulação e ganhando o apelido de “bom petista” por parte da revista.
Para Ubiraci Dantas (CGTB), Bernardo é um cidadão “que jogou a toalha”. Em sua avaliação, o ministro faz um “desserviço” à comunicação: “Ele está no caminho contrário da democratização, ao entregar o setor para os grandes empresários, atrasando e boicotando a luta pela regulação.”
O papel da mídia na cobertura do 11 de julho também foi debatido pelos representantes das sindicais. Houve consenso de que os grandes veículos tentarão distorcer o sentido das manifestações.
– É comum reunirmos dezenas de milhares de pessoas e não sair uma linha na mídia, mas quando diz respeito aos seus interesses, uma dezena de pessoas basta para deem destaque – opina Nivaldo Santana (CTB), que prevê uma “desqualificação gritante” quanto aos atos nacionais.
Os sindicalistas celebraram a importância da mídia alternativa, que faz contraponto à visão única sustentada pelos grandes conglomerados de comunicação. A imprensa sindical, como a TVT e a Agência Sindical, por exemplo, já está preparada para a cobertura em tempo real das manifestações do 11 de julho.
Pauta trabalhista
A unidade das centrais sindicais para as manifestações nacionais foram a tônica da entrevista coletiva. Todos os representantes destacaram a importância da pauta unitária para destravar a pauta trabalhista no governo, que não avança e, pior, vê grandes possibilidades de retrocesso. De acordo com Wagner Freitas, a intenção é “forçar o governo a atender às demandas”, destacando “o fim do fator previdenciário, fim da terceirização e redução da jornada de trabalho sem redução do salário, além de outras pautas periféricas”.
– Não é um ato das centrais sindicais, mas sim dos trabalhadores e trabalhadoras, chamados pelas centrais para se manifestarem, em um único rumo, a defenderem seus direitos – avalia.
Claudio Prado, da Força Sindical, destaca o Projeto de Lei 4330 como um dos principais alvos da manifestação.
– O PL 4330 foi feito por um dos maiores empresários do país. O que será que ele defende? – questiona.
A situação, na avaliação dos sindicalistas, é um golpe aos direitos dos trabalhadores, pois terceiriza o trabalhador, reduzindo seu salário e minando seus direitos.

Antonio Neto (CSB) e Nivaldo Santana (CTB) argumentam que, diferentemente das recentes manifestações de rua do país, o 11 de Julho tem pauta definida – “a defesa dos interesses dos trabalhadores” – e direção.

– Creio que será a maior mobilização sindical do Brasil nos últimos 10 anos – aposta Santana.
Segundo Ubiraci Dantas (CGTB), existe uma situação emergencial, que está na pauta unificada das centrais.
– Não se trata de um Fora Dilma, pelo contrário: estamos propondo guinada de direção dentro do próprio governo, com propostas ao invés de pedras na mão – opina.

Nota do Blog: Fora Paulo Bernardo, Franklin Martins para o Ministério das Telecomunicações.



terça-feira, 9 de julho de 2013

32+32= 64, ou o feriadão dos tukkkanos



Acorda manezão 


Embora antigo, este texto é mais do que atual, por isso estou publicando de novo, em homenagem ao pessoal que acordou agora.


Pouco antes do golpe de 1964 surgiu um slogan, lançado pelo governador de então, conhecido como Adhemar rouba mas faz, para marcar a posição dos "paulistas" em relação a agitação golpista promovida pela direita nacional de norte a sul. O slogan de Adhemar foi 32+32=64. 
Em dezenove de março de 1964, 500 mil donas de casa de todo estado, mobilizadas pela UCF (União Cívica Feminina), e contando com a simpatia dos setores dirigentes paulistas (governador, prefeitos, Fiesp), saíram as ruas contra o avanço da "comunização" no Brasil, pedindo a cabeça de João Goulart e incitando os militares a tomar uma atitude. Este protesto ficou conhecido como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade
Fazendo coro com as donas de casa e com o Palácio dos Bandeirantes, o jornal Estado de São Paulo (e similares) atacava o governo Jango diariamente através de editoriais cada vez mais violentos. 
Aqui se materializava a tríade do golpismo paulista da época, ademarismo, igreja católica e mídia impressa, capitaneada pela família Mesquita. E era justamente esta elite, tendo como porta voz o próprio governador do estado,  que se sentia muito a vontade para resgatar a "Revolução" Constitucionalista de 1932, feita pelos seus pais.
Com a Revolução de 1930 tem início a Era Vargas, e a oligarquia cafeicultora paulista, que governara o país por mais de trinta anos (sócia majoritária da oligarquia mineira), foi posta para fora do poder. Ninguém aguentava mais a aristocracia bandeirante, que governava de costas para o país, como se todo território nacional se resumisse ao mapa de São Paulo. Mas essa elite sempre foi vingativa, e em 1932 tentou articular um contra-golpe contra Vargas, mas no final terminou isolada, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, que em princípio apoiaram a iniciativa,  desistiram da aventura e São Paulo ficou sozinho na refrega. A luta pela constituição foi só uma desculpa para colocar de volta no poder os fazendeiros do café. 
Os mesmos que bradavam contra Vargas por uma constituição, exigiam democracia e liberdade política, governaram com mão de ferro o país por mais de trinta anos, fizeram muito pouco ou quase nada pela classe trabalhadora, não instituíram leis trabalhistas que fossem obedecidas na prática, não instituíram o voto feminino, não desenvolveram um sistema nacional de ensino, o mesmo serve para a saúde; endividaram o país através com empréstimos que eram revertidos apenas em benefício dos cafeicultores, não desenvolveram mecanismos de modo a incorporar os negros ao mercado de trabalho, etc... 
Um de seus próceres, Washington Luís, certa feita disse que "a questão social era caso de polícia".
Foi essa oligarquia que desenvolveu toda uma campanha de manipulação, mais uma vez capitaneada pela família Mesquita, para incitar o povo paulista a pegar em armas para defender interesses que não eram os seus. Foi essa oligarquia que levou mais de 600 paulistas a morte, jovens que tombaram para que um punhado de fazendeiros retomassem o poder e voltassem a governar o país para si. 
Essa elite criou um falso espírito paulista, conservador, reacionário, boçal, preconceituoso, xenófobo, racista e separatista, que até hoje empolga setores consideráveis da elite branca de São Paulo.
Não foi por acaso que o Adhemar rouba mas faz resgatou o espírito de 1932 em 1964, a ironia do destino foi que Adhemar ficou de fora do novo grupo que assaltou a poder em 1º de abril do mesmo ano, e em 1965 seria posto para fora do Palácio dos Bandeirantes. A tradicional oligarquia paulista, herdeira de Washington Luis, só voltaria ao poder em 1994, com FHC, agora com nova roupagem
Essa elite achou que seu reinado duraria outros trinta anos, porém seus planos foram frustrados em 2002 e 2006. Essa mesma elite que fez/ fará  de tudo para retornar ao poder em 2010, 2014, etc, etc, etc...

Sérgio Luiz